Pessoas me olham com olhos de juiz, mas isso pouco me importa, sinto por elas, por elas não conseguirem sentir o que sinto, viver o que vivo; isso é tão mágico, tão intenso, que a sábia mãe natureza deu este dom para poucos que conseguem captar sinais, mesmo no meio de tanta pedra, tanta lama.
Me libero por alguns instantes das luzes místicas e que me causam profundo prazer, caminho entre seres que bebem, que fumam, que se beijam, que me olham, outros que nem conseguem se enxergar, entro no lugar mais silencioso que consigo encontrar e deixo que as coisas sigam seu fluxo, pego meu celular, meu cartão e sinto no bolso algo estranho; nos dias de hoje o ar tornou-se sólido.
Saio dali e sinto uma vontade enorme de poder dançar, mas não ouço a música, converso com o soberbo do rapaz que tem o poder sobre elas e peço a tal, aquela, de quem odeia ser bonito; o que não é o meu caso, pois não sou bonito e nem odiaria ser. O supremo finge que não me ouve e eu finjo que não pedi nada, acendo o meu cigarro e logo lembro que não posso fumar ali. Um pedaço do ritual deve ser mudado, caminho com o cigarro até a saída, uma carimbada na mão esquerda e sinto um zumbido nos ouvidos, enquanto trago.
Vejo outras pessoas na rua, que também sentem o que sinto, vivem o que vivo, mas podemos dizer que elas já estão em um estágio mais avançado, percebo que o senhor enrolado em uma coberta e seguido por um cão, carrega uma lata de refrigerante aparentemente vazia, sei que é através dela que o senhor consegue alcança o seu nirvana.
Devidamente “nicotinado”, volto para o templo e percebo que as pessoas estão estranhas... Acho que a hora de ir chegou, saudações aos irmãos e sigo o meu caminho, acendo outro cigarro e subo a rua que me leva ao fim.
Termino o cigarro, compro, coloco, espero, entro, desço, entro de novo, desço mais uma vez, subo escadas e caminho novamente, espero mais um pouco, entro, pago, recebo, sento, durmo, sonho, puxo, desço e subo, abro, tranco, abro de novo, tranco mais uma vez e entro.
Aqui dentro a aura é outra, dois seres se enroscam nos meus pés demonstrando carinho, converso rapidamente com a verdadeira mulher e penso em tomar banho, mas sinto que meu corpo não aguentará uma atitude tão ousada de minha parte e me rendo. Me deito com a roupa que estou e desmaio.
Provavelmente só levantarei, quando o filme da sessão da tarde estiver na metade e o almoço congelado...
Ouvindo: Zero - Yeah Yeah Yeahs.
